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A mostrar mensagens de 2010

Uma semana no meu país

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Cheguei a Lisboa num dia em que chovia e faltava açúcar nos supermercados.
Também havia trânsito na segunda circular, mas isso é tão característico e permanente como as pedras da calçada portuguesa.



Portanto não me surpreendeu. Para dizer a verdade não foi uma semana de surpresas.
Podia fazer-me de vítima e dizer que a balança me pregou uma grande surpresa, todo 1 kg de surpresa! Ai Meu Deus que eu não estava nada à espera! Mentira. Com a quantidade enfardada de bolos, chocolates e comida da mamã, mais magra é que eu não podia ficar…



De resto, a torre de Belém ainda não foi demolida em prol da construção privada, as iluminações de Natal da baixa são as mesmas do ano passado, continua a haver bacalhau e bolo rei na noite da consoada e a classe média está lixada.
Enfim, está tudo mais ou menos no mesmo sítio, com menos dinheiro e a gasolina mais cara.
Há um restaurante novo (pelo menos para mim) ao pé do Marquês, que recria um american dinner, apesar de servir bifinhos de peru com natas…

A Senhora Barbie

Foi um choque. Não estava preparada. Já me tinham contado coisas parecidas. Mas no caso que me contaram tratava-se de uma criança de 4 anos e então eu ri-me. Não imaginava o que as estrelinhas tinham reservado para quando chegasse a minha vez. Foi numa tarde de grande reboliço no Chiado, em pré- véspera- de- Natal, com o estado do tempo hesitante, entre chuvas torrenciais e sol de inverno. Isso sim, sem direito arco-íris porque os céus este ano também estão em contenção.
Entrei nos provadores da H&M. Um grupo de adolescentes estava a fazer uma prova conjunta de vestidos para a passagem de ano. Não indiferentes à minha chegada, uma das jovens diz “Oh, então, deixa a senhora passar.” Observei o meu reflexo no espelho, não havia ninguém atrás de mim. A senhora era eu. Efectivamente. PIM!PAM!PUM! A minha alma estilhaçou-se em pedacinhos de indignação. Mas em vez de apontar-lhe o despautério, a barbaridade que acabava de pronunciar, disse-lhe “obrigado” com um sorriso amarelo torrad…

Quem é que não gosta?

Dizem que é impossível agradar a todos. Há quem não goste de Saramago, há quem ache que o Brad Pitt não é nada de especial, há quem goste das roupas da Lady Gaga. Há até, imagine-se, quem não goste de chocolates!
Tenho certeza de que há quem não goste de mim, quem me ache antipática, entre muitas outras coisas. Da mesma maneira que há pessoas que seguramente são excelentes e eu acho-as intragáveis.
Quando se trata de jogadores de futebol então, o ódio por parte das equipes rivais é garantido. Principalmente sendo um dos melhores.
Mas há uma pessoa, um jogador de futebol que está nomeada para o prémio de melhor do mundo, de quem toda a gente gosta. É, a meu ver, um fenómeno de gostabilidade inexplicável. Reúne santos e pecadores, harmoniza claques, é bem quisto desde todos os lados e põe fotos caseiras no facebook, onde é amigo de toda a gente.
Os anúncios preferem-no a ele que a ao que marca mais golos ou ao que é mais bonito. Porque este, baixinho, de cabelo rapado e de um tom de pele…

O "caganer"

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Desde que entrei nesta vida parcialmente errante de país em país, que a minha capacidade de adaptaçao ganhou uma elasticidade digna de campea olímpica de ginástica rítmica. Eu, que nunca consegui tocar com as maos nos pés.
E quando pensei que a última coisa que nao entendia nesta Catalunha pouco espanhola eram as sandes de tortilla (que prazer se pode tirar de duas fatias de pao com uma volumosa omelete de ovo e batatas no meio, sem mais nada?) descobri o “caganer”.
Foi há alguns dias atrás, numa incursao ao Mare Magnum, único centro comercial aberto aos Domingos. Como nao podia deixar de ser, todas as ruas, casas, lojas e,” por supuesto”, centros comerciais, estao decorados com motivos natalícios. Por motivos natalícios entendem-se pinheiros, pais natal, estrelas, sinos, presentes, trenós, bambis e bonecos do Maradona para colocar no presépio, caso estejamos em Nápoles.
Aposto que no meio do Colombo há um pinheiro gigante, a casa do Pai Natal, crianças excitadas a ver se lhes cai algu…

Las chicas woohoo!

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Parecia um episódio do Sex and The City. Um grupo de amigas, lindas maravilhosas e perfumadas, juntou-se para almoçar no clube mais chique da cidade. Loiras, morenas, negras. Da Holanda, da Noruega, da Colombia, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Islandia, da Alemanha, da Etiópia! Belezas exóticas, riqueza de idiomas e culturas, praticamente um Congresso das Naçoes Unidas. Puseram-nos nas melhores camas (nos clubes chiques nao se come em mesas), ofereceram-nos as entradas, a tábua de doces, os vinhos, o champanhe, os mojitos de morango. A conta, que deveria ser de mais de 100€ por cabeça, ficou-se pelo preço de um menu do meio dia. Rimos, comemos, brindámos, tirámos fotos e gritámos woohoo muitas vezes, demasiadas vezes. Whoohoo é essa explosao de fertilidade feminina sem ataduras sociais. WOOHOOO!
É multitasking, como o “prego” em italiano. Um brinde, WOOHOO, mais uma amiga que chega, WOOHOO, algum statement brilhate sobre os homens WOOHOO, outra rodada grátis WOOHOO HOO HOO! To…

Stefani Joanne Angelina Germanotta

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Não admira que alguém que se chama Stefani Joana Angelina tenha mudado o nome para Lady Gaga. È mais curto, mais catchy e soa a marca de fraldas para bebés em vez de cantora pimba.
Já os bilhetes haviam esgotado há 3 meses para o seu espectáculo em Barcelona e eu ainda nem sequer sabia que ela cá vinha. Para que fique claro o quanto me emociona esta artista.
Mas o meu cabeleireiro (importante resguardar que não é gay) tinha bilhetes grátis e queria ir ver os penteados e os vestidos, ou pelo menos isso dizia. Também se não fosse por isso não vejo pelo que poderia ser porque canções dela ele não conhecia nenhuma.
Ai que é um grande espectáculo, que são os bilhetes mais caros, que já está tudo esgotado, que vai ser o evénement do mês e lá me convenceu. Fomos. Acho que não via tanta gente aglomerada num sítio desde as filas da Expo 98. É que nem o Papa conseguiu juntar tanta massa humana quando cá esteve no mês passado e note-se que ir ver o Papa era grátis! Suponho que, em grande parte…

Uma profissão de risco

As pessoas andavam chateadas. Por causa da crise, do trânsito, do frio, do desemprego, do trabalho, da sogra e do filho que não pára de chorar. E de repente ilumina-se a luz ao fundo do túnel. Fim de semana com 3 dias de prolongamento! Segunda e Quarta é feriado, terça faz-se ponte. Foi um massivo comprar de viagens e fazer as malas. A alegria voltava a cara dos espanhóis na mesma semana que se acendiam as luzes de Natal pelas ruas.
Então um bando de marmelos pensou: o que é que era mesmo fixe para irradiar o espírito de Natal e fazer com que toda a gente voltasse a estar chateada?
Greve. Greve dos controladores de voo! Esses fofos.
Pois é, numa de vamos lixar a malta e o Zapatero, os controladores de voo não pensaram duas vezes: querem ir viajar? Pois vão ficar a querer e a dormir no aeroporto. Crueldade pura e dura, eu diria.
Mas funcionou. Caos, estado de crise declarado e gente muito, muito chateada. (E o F.C. Barcelona que teve de apanhar o AVE e ainda não se sabe se vai chega…

Um balde de água fria

Um balde não. Um Kremlin. De gelo!
E a Espanha que sofreu um humilhante 4-0 contra Portugal, para nada. Isto não se faz.
Logo agora que se tinham juntado dois países historicamente arqui-inimigos. Logo agora que o Estádio do Algarve ia voltar a servir para alguma coisa que não fossem jogos da terceira divisão. Afinal não. Ganhou a Russia. E o Qatar!
Uma coisa que eu não entendo muito bem é como é que os jogadores vão andar a passar dos estádios no meio do deserto para os estádios com neve nas linhas de pontapé de canto e vice-versa. Um jogo com luvas, um jogo com protector solar. Um dia com um rial do quatar na carteira, outro dia com um rublo na mão. Bom , desde que não haja vuvuzelas acho que já vamos ficar todos muito agradecidos.
Ainda assim não me conformo. Eu queria ir ver os jogos ora bolas!
Sei perfeitamente que estamos no Natal, mas esta mania da FIFA de se armar em UNICEF já me começa a irritar. E depois, se queriam MEEEEEEESMO ajudar algum país, que melhor opção que Portug…

Give me 5!!!

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Se um dia tiver filhos vou-lhes contar. E se um dia os filhos que eu tiver tiverem netos, também lhes vou contar. Vou contar-lhes como era viver na cidade do melhor clube do mundo. Vou contar-lhes da noite em que o melhor clube do mundo, com o melhor treinador do mundo e os melhores jogadores do mundo, destroçou o seu rival. Porque hoje ficou claro quem são os melhores do mundo.
Vou contar-lhes como as pessoas se vestiram de blau grana, como os bares se encheram e as cervejas se acabaram, como o campo explodiu de emoção com o primeiro golo, e com o segundo, e com o terceiro, e com o quarto e com o quinto!!! E como se levantaram as mãos numa onda interminável de 5 dedos e se gastaram as gargantas.
Vou contar-lhes de quando o nosso menino bonito se portou mal e, impotente, empurrou o treinador adversário, e bateu e insultou todos os jogadores ao seu redor. Menos o Piqué, porque esse já é da mesma altura que ele.
Vou contar-lhes como foi a maior derrota do homem mais famoso de Portugal.
V…

Outra vez o clássico

Ontem a Catalunha foi a votos. Notícia que passou no rodapé dos telejornais enquanto os ecrans se enchiam com aquilo que a Espanha queria realmente saber: quem é mais elegante, Mourinho ou Guardiola, qual dos jogadores tem a namorada mais bonita , qual é o prato preferido do Messi, quando é que ele começou a atar os cordoes sozinho, quantos objectos foram atirados ao Figo no seu regresso ao Camp Nou e por último mas nao menos importante, onde é que o Cristiano Ronaldo depila as sobrancelhas.

A última semana desenrolou-se num torpedo de informaçoes como estas, primordiais para um eficiente contributo dos media na formaçao da opiniao pública. E fundamentadas com estatísticas extremamente interessantes, que recuperaram números e figuras do tempo em que os jogadores de futebol apareciam a preto e branco na televisao e eram muito mais ousados no comprimento dos seus calçoes. Também nao faltaram os depoimentos de especialistas na matéria como Rafa Nadal ou Fernando Alonso “Espero que gan…

Sopa não!

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Há um mês que o meu chefe andava entusiasmadíssimo porque ia cozinhar uma sopa para a família e os amigos. Mas não era uma sopa qualquer, era a escudella! Cada vez que o ouvia a dizer isto, pensava em guerreiros e escudos e catapultas. Mesmo depois de me terem explicado que se tratava de um cozido que levava “de tudo”. Eu, por defeito, não sou grande entusiasta do “de tudo”. É uma espécie de salto de pára-quedas sem saber muito bem se todos os fios do pára-quedas se vão abrir. Chegámos à conclusão que seria como um cozido à portuguesa mas com uma massa especial em forma de caracol gigante. Boa, com o que eu não gosto de cozido à portuguesa.
Receosa e acanhada, lá me apresentei às 3 da tarde para comer a sopa típica do natal catalão.
Qual não foi a minha surpresa quando havia uma série de coisas normais: pão, salada, fuet, queijo, batatas fritas, água! Empanturrei-me de tudo isto o quanto pude e quando começaram a vir as coisas estranhas, supostamente para atirarmos dentro da sopa, já …

Só hoje

Hoje, nas minhas duas horas de catalão matinais, aprendi a pôr mesa e a nomear todos os complementos que uma cozinha que se preze pode desejar. Em português, desconheço qualquer subtipo de panelas ou frigideiras. Agora, em catalão, sei mais nomes de utensílios culinários do que de pratos que sei confeccionar.
Hoje, no meio dos emails de trabalho, aprendi uma palavra nova: serigrafia. Refere-se a uma técnica de estampagem de camisetas, neste caso, com logos de cerveja.
Hoje, lendo um livro para crianças, aprendi que em Francês Jack o Estripador se diz Jack L’eventreur. Não deixa de ser mais romântico.
Hoje, num momento de tédio e sonho com o desbravamento de novos mundos, aprendi que nesta época do ano em Marrakech as temperaturas rondam os 20 e os 25 graus durante o dia, estando abaixo dos 10 durante a noite.
Hoje, no final da minha jornada laboral, aprendi conceitos básicos de Photoshop para aplicação ao design comercial. Uma mistura de Paint, com Power point, com Word, num nível de …

"I hate Mondays!"

As temperaturas vao descendo e os ânimos vao subindo na cidade de Tó Gaudí. Estamos a 10 graus centígrados e 7 dias do evento desportivo mais galvanizante de toda a temporada: BARÇA – MADRID!!!
Os bilhetes já esgotaram, o mercado negro fervilha e este ano os sócios vendem os seus cartoes, só pelo jogo em questao, a amantes do futebol que nao estejam em crise. Diz que com esse acto de benificiencia (é discutivel quem é o benificiente, se o comprador se o vendedor) já se cobre o abono anual do cartao de sócio e ainda sobra para os presentes de Natal.

Aluguer de casas e de cartoes de sócio do FCB. Nesta cidade, sao os negócios mais estáveis e com o ROE mais seguro que eu conheço.
Mas deixemos a economia, que também já nao tem ponta por onde se lhe pegue, e falemos do calor deste confronto épico. Melhor treinador do mundo contra melhor treinador do mundo, melhor jogador do mundo contra melhor jogador do mundo. Mas se é o melhor, só pode ser 1. E quem o for levará a liderança do campeonato e…

Louca

Quanto mais vivo nesta cidade menos entendo o swing imaginário que ela emana. Nao sei de onde vem esse there is something about Barcelona mas sei que chega a todos os lados. E eu também vivi em muitos lados. Nenhum lado é igual e Barcelona é diferente de todos eles. Talvez sejam os murmúrios acelerados das ramblas que ecoam nos suspiros do ar quente, talvez seja o compasso intensivo da noite, talvez sejam os segredos de Gaudí, talvez seja rebentaçao do mar quando enrola na areia. Ainda que as praias sejam artificiais, ainda que que o contraponto aos segredos de Gaudí sejam ruinas modernas onde vivem os pescadores, ainda que a noite canse, ainda que o ar quente se torne frio no Inverno e arrefeça as ramblas. Ainda que o FCB perca em casa no primeiro jogo da temporada contra uma equipa recém-ascendida chamada Hércules. Pois sim, Barcelona é tragicamente atraente. Uma cidade dramática na conotaçao expressiva do vocábulo. Nao é a capital da moda porque tem uma moda à parte e também na…

Abençoada Barcelona

Nunca me senti tão segura. Tenho um par de polícias em cada esquina do meu bairro. O trânsito foi cortado e nas ruas montaram-se ecrãs gigantes e palanques para as câmaras de televisão. Há muito boa gente que hoje não vai dormir com a excitação do dia de amanhã. Mais ou menos o que me passou quando tinha 12 anos e fui ao meu primeiro concerto. Era um concerto dos Moffatts - boysband juvenil agora perdida no anonimato mas outrora muito em voga em todas as edições da Super Pop e da Bravo. Eu era apaixonada pelo vocalista do grupo, Scott Moffatt, que tinha madeixas loiras na parte dianteira do cabelo (comprido).
E esse turbilhão de ansiedade e histeria que os Moffatts despertaram em mim, é hoje sentimento predominante numa larga camada da população catalana. Porque amanhã o Papa vem cá. Cá, aqui, Sagrada Família, a dois passos da minha porta. E o Papa, ainda que sem madeixas loiras, despoleta considerável nível de histeria entre as massas cristãs. Tanto, que desde um mês que os resident…

A nova "Nova"

De repente, a meio dos comentários do Lula sobre o triunfo da Dilma, saltou-me à vista outra notícia. Estava ali escondida a um canto, tímida e low profile. Era, por outras palavras, a notícia de que as geraçoes futuras da FCSH da Universidade Nova de Lisboa nao mais entrarao pelo pássaro em posiçao de voo, nem ascenderao ao elevador que se avaria no prédio projectado como um livro aberto.

Nao mais se farao trabalhos nem praxes nos jardins da Gulbenkian. (Os patos do lago morrerao de tédio). É o fim da interrupçao sonora das aulas pelos sinos da igreja, pelas travagens a fundo e buzinas impertinentes da Avenida de Berna. Cessarao as piadas por causa do hospital nas traseiras da faculdade e a inspiraçao proveniente do galo que, cheio de porte, se passeia pela esplanada.

Sim, também se acabam as aulas nos calabouços onde o ar escasseia. E, provavelmente, as alheiras e os hamburgeres de tofu dia sim, dia sim. Se bem que eu acho que as alheiras sao um mal comum a todas as cantinas estuda…

Meio dia e quartos

Eu dizia “meio-dia”. E perguntavam “mas a que horas?”. E eu voltava a dizer “ao meio-dia!”. E voltavam a perguntar-me “mas ao meio-dia a que horas?”. E, por fim, eu dizia “já disse, ao meio-dia”. E apareciam às duas da tarde. Levou-me algum tempo para perceber que o meio dia espanhol não é igual ao meio dia português. O meio dia espanhol não se fica pelas 12, alarga-se até às 2/3 da tarde. Não é uma hora precisa, é uma franja horária vaga. E uma vez que isto já estava sedimentado, resolvi aprender catalão. Eu não sei como é que se dizem as horas em chinês, mas de certeza que é mais simples que em catalão. São muito práticos os chineses. Já os catalães, no que toca a dizer as horas, são uns filósofos, um bando de Nietzsches em estado puro! De tal maneira que, em alguns casos, entre que terminam de dizer as horas e a pessoa termina de fazer as contas para saber que horas são, a hora já mudou.
Senão vejamos: são duas e um quarto: é um quarto de três; são duas e vinte e cinco: passam dez…

O sol cansou-se...

Durante uns dias ainda me fui enganando. Um casaco curto disfarçava. Mas agora, face ao escurinho que se abate pela cidade quando apenas são 7.30, e às pétalas varridas na minha varanda alagada, é inútil continuar o engodo. Acabou-se o cheiro a água salgada e o chapéu de palha no hall de entrada. As sandálias já não podem sair à noite e as noites já não nos convidam a sair. O bronze esvai-se sem piedade, pouco a pouco, irrecuperável, até ao próximo Verão. O vento sacode ondas e persianas e a última vez que fui à praia parece estar mais longe que a última vez que perdi o guarda-chuva.
Lembro-me dos primeiros dias de amor e primavera. Que linda que é Barcelona quando começa o bom tempo! Que alegres que são as ruas e as pessoas e todos os dias parecem felizes. Vê-se pelas cores dos vernizes: rosas choque, azuis Channel e verdes fluorescentes. Agora, a moda da estação são os alertas laranjas e as bandeiras vermelhas.
Findada a relação com o leque e o céu sem nuvens, começa um compromisso…

Patinagem no gelo

Eu disse-lhe “vamos fazer alguma coisa interessante” e ela respondeu “que tal patinagem no gelo?”. É o que sucede, quando uma trava amizade com norueguesas. Se eu tivesse arranjado uma amiga brasileira, teria passado a tarde de Domigo num pagode à beira mar. Em vez disso, arranquei as luvas negras da gaveta e juntei-as às meias com dedinhos e à blusa de manga comprida. À hora do jogo de futebol, estávamos no pavilhão de gelo ao lado do estádio.
É uma carga de trabalhos para calçar os patins e uma vez postos não há nada mais frustrante que ouvir: “tens os patins mal apertados, saltaste um buraco, assim vais cair”. Vexame. Dez minutos de luta atirados para o ar. Se a senhora não me tivesse dado um patim com cordões desfiados eu tinha conseguido enfiá-los no buraco que faltava. Vai de trocar de patins, enquanto ela já se avançava em explicações para principiantes. Como estava ocupada a apertar os patins não prestei atenção e tive de pedir à minha amiga que me recapitulasse. “Para avanç…

Meio sonho

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Quando o Ricky Rubio não consegue entradas grátis para o jogo dos Lakers contra o F:C Barcelona e nós sim, é porque atingimos o nível máximo da sigla RP. Para os leigos do basketball os Lakers são os campeões da NBA e o Ricky Rubio é a estrela do F.C.Barcelona, tendo também já passado pela NBA. Apesar de ser mais novo do que eu.
Os Lakers vieram defrontar o F.C. Barcelona no campo do Estádio Olímpico e 17.000 pessoas foram ver. Quantas é que cabem lá dentro sentadinhas para um jogo de basket? Pois precisamente 17.000. Daí se deduz o complicado que era conseguir bilhetes. Só que uma vez um promotor convidou-me para uma festa onde eu conheci o director de outra discoteca, que por sua vez me apresentou ao director da zona VIP da sua discoteca, o qual estava na festa de lançamento da nova garrafa da Heineken, à qual eu compareci por, cobrando, a convite de outro promotor, e comentei o quanto queria ir ao jogo. Pois no dia seguinte ele (o director da zona vip) arranjou 4 bilhetes e lá fomo…

Barcelona, onde tudo é possível....

Hoje estou orgulhosa de mim mesma. Normalmente é sempre o meu pai quem transborda orgulho da sua primogénita. Mas hoje não. Hoje sou eu. Sou eu que estou orgulhosa da educação que me deram, dos valores que criaram em mim. Estou orgulhosa de ter acabado de conhecer toda a equipa dos L.A Lakers e ter dito adeus vou para casa. E eu sou fã dos Lakers!
Estou orgulhosa de ter um trabalho que consegui sozinha, pelo meu currículo e pela boa entrevista. Orgulhosa de ter mantido esse trabalho pelos bons resultados aportados à empresa. Não pagam muito bem, não. Mas faço o que estudei, faço o que gosto. Podia ganhar 10 vezes mais? E mais de 10 vezes mais? Sim, podia.
Em Barcelona surgem todo o tipo de ofertas. E eu estou orgulhosa de escolher apenas aquelas que considero interessantes. Infelizmente são as pior pagas. Mas oh! A dignidade não tem preço.
Agora até já me pagam para ir a eventos. O que está muito bem sim senhor e vai servir lindamente para cobrir os excessos telefónicos deste mês. Além…

Vaga

A Europa chamou e Barcelona respondeu. Quando ouvi dizer que iam fazer greve (vaga em catalão) nunca pensei que me encontraria com as portas do metro fechadas e as paragens de autocarro com lugar livre no banco de espera. Correcção, com todo o banco de espera livre. O que significa que tive de ir a pé desde a Sagrada Família até ao centro, onde reside o meu local de trabalho e onde se desenrolou a catarse da revolta.

Ontem, Barcelona estava algures entre Nápoles com as suas montanhas de lixo acumuladas pela via pública, Paris no Mai 68 e o Porto com os super dragões depois de uma derrota em casa contra o Benfica. As lojas estavam fechadas ou abertas a meia haste, a polícia de choque pululava por todos os lados e os bombeiros andavam muito atarefados a apagar carros e contentores em chamas. Esperta que só ela, resolvi sair do trabalho na hora do jogo do FCB, convencida de que estaria toda a gente a ver a partida. Convicção que durou pouco. Foi sair e observar que não havia táxis na pa…

A ilha

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Se eu tivesse ido a Ibiza com as minhas amigas de certeza que a história deste post seria diferente. Mas, como nenhuma delas estava disponível, fui com dois amigos catalães. Razão pela qual as memórias ibizencas se resumem numa rotina compulsiva de festa - praia/piscina do hotel com paragem pela casa partida para dormir até às duas tarde. Eu ainda tentei que me levassem ao castelo mas eles tinham os seus planos anti-culturais demasiado bem definidos. E, mais que isso, tinham as chaves do carro, a carta de condução e, efectivamente, a capacidade de conduzir. Coisa que eu já perdi há algum tempo. Então, como highlights de Ibiza tudo o que tenho para contar foi quando fomos a uma “cala” comer sardinhas, ou quando caí de rabo no meio do passeio do porto, perante o olhar de escárnio de várias pessoas. Quando fomos comer sardinhas, na orla do mar, num pedaço de areia perdido detrás de uma montanha ao abrigo das estrelas, assim tal e qual de edílico como soa, eu só comi pão com salada. P…

Já não é Verão

Estalou um tremor de terra em Barcelona e o edifício onde eu trabalho, pegadinho com o templo romano de sabe Deus que século antes de ele mesmo, virá abaixo num instantinho. Ah afinal era só um trovão. E mais outro. Desde há uns dias que por cá andamos como Noé na sua arca, a navegar entre relâmpagos, casas sem luz e elevadores que não funcionam. Oh sim, que lindo que é viver no último andar com vistas da cidade e do mar. É lindo todos os dias, exceptuando aqueles em que a porta do elevador tem um papel a dizer “avariat”. Eu é que já começo a ficar avariada, com a quantidade de vezes que tenho que subir e descer esses 8 andares de lance de escada em caracol. Há quem me pergunte porque é que não tiro os saltos. Simples. Porque quando chego diante de minha porta já tenho falta de ar, princípio de asma e tonturas múltiplas, de modo que não me faz falta nenhuma apanhar pé de atleta pelo caminho. Depois imagino os efeitos endurecedores para coxas e glúteos e passa logo tudo. Mas palpita-m…

A maldição do sushi

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Já não me lembro quando é que o sushi se fez moda obrigatória na cultura ocidental. Mas acho que já foi há tempo suficiente para ser substituído por outro prato asiático. Sei lá, caril de frango por exemplo.
De facto, não prestei atenção quando começaram a proliferar os restaurantes japoneses. Porque é que haveria de prestar? Desde que tive que ir para as urgências com uma espinha entalada na garganta que se gerou uma certa animosidade entre mim e o peixe. Cru então, é preciso muita força de vontade. Por isso é que lhe dão nomes fofinhos, tipo sashimi, e o fazem todo design da alta cozinha. Sim. O sushi é bonito. Mas continua a ser peixe cru. E quem vai comer sushi continua com fome. E misturar-lhe algas e outras coisas não comestíveis só o torna mais repugnante.
A única maneira de eu comer sushi seria uma lasanha ou uma pizza de sushi. E evidentemente que estamos a descartar os pauzinhos, que são muito úteis sim senhor, para meter na cabeça a prender o cabelo. Infelizmente a minha …

"Roubos" vários

Qual não foi o meu espanto quando numa bela manhã, ao conferir os meus movimentos de conta, encontrei uma saída de mais de 80€ intitulada Rbs.vários. Perguntei ao senhor do banco quem eram os Rbo.vários. Esses ladrões! “É a sigla para recibos e estes foram facturados por, espere aí que vemos já, Jazztel.” A mesma companhia com quem eu tenho um contrato de internet por 19€ mensuais. Matemática não é o meu forte mas creio que há uma diferença considerável entre 19€ e 80€. A ligação para reclamar começou mal, em jeito de prenuncio. Por muitas vezes que eu marcasse o número da minha linha de cliente o mesmo não era identificado. Então fui dirigida o atendimento aos não clientes.
Atendedor número 1
Explicar a situação, dar os números de identificação, esperar. “Ah realmente vejo que há um erro na sua factura” “Pois isso eu já tinha reparado” “Mas quer dar de baixa ou quer reaver o dinheiro” (a sério que me está a perguntar isto?) “Eu quero que me devolvam o dinheiro”. “Então vou-lhe passar …

O meu primeiro casamento

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Estava entusiasmada com o meu primeiro casamento. Não só por ser o primeiro mas por ser o do meu chefe com a Sam. Aaaah! Já estavam a pensar outra coisa não era?



Foi a Sam quem me contratou. Voltava para Inglaterra porque se tinha chateado com o namorado, que também era seu chefe, pelo que tinha de deixar o trabalho.
Mas um dia o meu chefe foi a Inglaterra e trouxe-a de volta. E há alguns meses sugeriu-lhe que se casassem. E quando digo sugeriu não é nenhuma figura de estilo, é verídico. Sem anel nem joelho no chão e, provavelmente, com uma cerveja na mão. Cada pessoa é romântica no seu estilo. E depois há aquelas que simplesmente não o são, de todo. O meu chefe é uma dessas. Por isso a noiva já nem sequer se chateou por ele ter perdido a aliança no mar, na mesma noite da festa de casamento.
Em sua defesa argumenta que por ter feito dieta (perdeu 15 kg para não subir pelo altar a rebolar) os dedos emagreceram e a aliança estava mais solta.
E o casamento foi todo assim, divertido e casu…

O juiz decide

Quando eu era pequenina havia um programa da tarde chamado “o Juiz decide” que resolvia pequenas querelas da vida quotidiana. No intervalo aparecia uma balança com os votos das pessoas sobre quem lhes parecia ter razão. E no fim a voz off dizia “O Juiz decidiu, está decidido”.
Transcorridos quase 8 anos desde que rebentou o já lendário caso Casa Pia, o juiz, finalmente, lá se decidiu a decidir.
Ainda assim, há quem insista em não acatar a decisão. Todos os cidadãos são inocentes até que provem o contrário. O contrário foi provado e não é um site de limpeza de imagem e com mau design que vai mudar a sentença. Sem esquecer o nome do site, à la hit da literatura light, “Provas da verdade”. Gosto da ironia, posto que a verdade é que o senhor foi condenado. E que não gosta da TVI. Essa verdade sim, está 100% corroborada pelas “Provas da verdade”. Evidentemente, cada um tem direito à sua opinião e a acreditar no Pai Natal, no Coelhinho da Páscoa e no site de Carlos Cruz, se assim entender. C…

De Gata Borralheira a Cinderela

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Quando cheguei a Barcelona não sabia que para entrar numa discoteca era preciso estar na “lista” ou ter um flyer-passe. Então explicava que tinha acabado de chegar, que só vinha conhecer o lugar e para conferir mais dramatismo dizia que me ia embora no dia seguinte. Resultou sempre. Porém tinha uma falha considerável: só se podia aplicar uma vez em cada local. Seguiu-se a fase das listas do facebook. Escrever o meu nome em listas que não sabia de quem eram. Inspirava pouca confiança e revelou-se demasiado falível. Então, pouco a pouco, fui conhecendo gente e mais gente. A gente que se tem de conhecer. O meu trabalho de relações públicas contribuiu bastante para o alargamento da minha network de connections. E agora, agora é o que se pode chamar a fase dourada da minha vida nocturna em Barcelona. Não faço filas e não pago entrada. Vou directamente ao espaço vip onde me oferecem bebida para toda a noite e onde confraternizo com jogadores de futebol, jogadores da NBA, milionários americ…

Vª. Exª.

Ninguém gosta de receber cartas das Finanças. Só pode ser mau augúrio. Agora imagine-se receber uma carta do ministério das finanças de Portugal quando se está legalmente registado e a pagar impostos em Espanha. Pior, quando as únicas pessoas que sabem a nossa nova morada em Barcelona são os nossos pais. Será que as finanças têm serviços de espionagem? Algum co-branding com a CIA? E, assim sendo, porque se dariam ao trabalho de investigar a minha nova morada? Eu, uma imigrante mais nos 27.000 que pululam por Barceolna. Ahhh! Será que inventaram algum imposto do imigrante? Ou multa por abandono da pátria não declarado?
Enfim, todas os medos se dissiparam quando abri a carta, a qual se referia à minha pessoa como Vª Exª, o que me tranquilizou bastante. Na ordem da boa sintaxe e coerência textual, a seguir a Vª Exª não poder vir nada como “é procurado pelas autoridades por imigração ilícita e dívida para com o Estado Português”. E de facto não vinha. A Vª Exª procedem 5 linhas com nomes…

Nunca confiar num alquimista

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Paulo Coelho. Já tinha ouvido falar mais vezes que as estrelas que cintilam nesta noite de Verão. Nunca tinha lido. Até já tinha vergonha.
Abram-se as janelas da alma para o zen e conjuguem-se o yang e o yin na euforia do entendimento de todos entendimentos, ou dê-se o caso de achar que Deus, lendas pessoais e vozes do coração são balelas, é sempre leitura obrigatória. É um estilo particular. Uma recriação moderna do Padre Vieira com camelos em vez de peixes. Às vezes admiro-me com a verdade dos pensamentos. Ás vezes desejo estar outra vez a ler o Diário da Carrie Bradshaw na adolescencia.
Quem é este senhor para vir pregar a voz do mundo na literatura? Mas bolas, aqui e ali tem mesmo razão. Dá que pensar. E assim lia eu, imbuída entre o profundo e o mas isto nunca mais acaba, quando aconteceu o inesperado: um momento hilariante! E, no entanto, é o momento mais dramático da trama. A morte ameaça. O personagem principal e o alquimista foram capturados por um clã do deserto que está em …

Férias no Algarve

Férias no Algarve é tradição mas é moderno, é chique mas é cliché. É famoso mas não é Ibiza.
Férias no Algarve é comer uma bola de Berlim como se fosse a primeira vez, porque a última já foi há mais tempo do que o que alcança a memória das glândulas salivares. Férias no Algarve é intercalar a bola de Berlim com pastéis de amêndoa. Férias no Algarve é areia que desliza pelos dedos dos pés e mar que não dá comichão. Em vez das águas contaminadas de Barcelona e da areia artificial feita de pó.
Férias no Algarve é o comboio da praia do Barril, o barco das Ilhas Desertas e o trânsito na volta da praia da Falésia. Férias no Algarve é ouvir a pronúncia do Norte na toalha ao lado e na da frente e na de trás também. Ou então espanhol.
Férias no Algarve é relembrar que os concertos na praia são, literalmente, na praia e portanto todo o tipo de calçado alto é inadequado.
Férias no Algarve são as avionetas que enfeitam o céu, anunciando as melhores festas de cada noite, ou pelo menos as que têm m…

Eu vou ver este filme!

Porque tem pedaços da minha história.

Os anos vão passando. Já lá vão 3. Mas as memórias tingidas de saudade não passam com os anos. Estão sempre ali na fronteira do sonho como o sonho que se tornou realidade. A realidade que superou o sonho. E essas memórias trazem arrepios e sorrisos tontos. Trazem lágrimas pequeninas de qualquer coisa. Qualquer coisa entre a melancolia e os dias mais felizes da minha vida.
Eu nem sequer sabia que aquela cidade existia e ainda sabia menos ao que ia. E hoje sei que não poderia ter existido sem ter ido. Sem ter ido para lá.
São tantas histórias e tantas pessoas, tantos caminhos e tantas vezes o mesmo caminho. Que é fascinante como uma só imagem me faz percorrer tudo outra vez. Uma só imagem num só segundo.
É a imagem da praça onde todos os caminhos vão dar. Não, não é Roma. É Siena.

A penetra

Barcelona é conhecida pelo Barça, pela arquitectura sonhadora de Gaudí, pelo fervilhante ambiente nocturno e pelas baratas. As “cucarachas”, principalmente no centro que é a parte mais antiga, são um símbolo da cidade. Tão característico como a estátua do lagarto no Parc Guell.
A Rita afirma ter vislumbrado pequenas baratas na nossa antiga casa. Tão pequenas que eu nunca vi nenhuma. De qualquer modo baratas pequenas não me causam repugnância por aí além. E as grandes também não. Dizia eu. Até ver uma a entrar, formosa e segura, na minha casa de banho. AAAAAAAAAAAAAAAAAAH! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! O QUE É QUE EU FAÇO? O QUE É QUE EU FAÇO? AAAAAAAAAAAAH! A primeira coisa que me atravessou o cérebro em estado de choque foi pôr-me em cima de uma cadeira e continuar a gritar até alguém aniquilar a barata. Um pensamento que durou apenas o suficiente para eu perceber que ou aniquilava eu a barata ou ficávamos a viver as duas juntas. O pressentimento de falta de química entre nós deu-me …

Vítima de extravio

Quis agredir a cabeça com a porta e vice versa. Quis gritar até a Sagrada Família estremecer. O que vai acontecer de qualquer maneira, quando o AVE lhe passar por baixo.
Porquê? Porquê? Como é que é possível? E enquanto questionava a minha própria imprudência e estupidez (posto que estava a falar com o meu reflexo no espelho a estupidez ganhou ainda mais veracidade) não pude deixar de recorrer ao choro, para engrandecer este drama megalómano que é perder a identidade. O bilhete de identidade. Estava na mala, como todos os dias. Só que em algum momento se há de ter lançado silenciosamente em queda livre sem que eu me apercebesse. E no dia seguinte já não estava na mala. Calma, respira, eu tenho o passaporte. Contando que o consigo manter localizável nos meus pertences a tragédia reduz-se consideravelmente. Ainda assim.. PORQUÊ? PORQUÊ? COMO É QUE É POSSÍVEL?
Eu tenho um curso superior e um mestrado. O meu nome consta no quadro de honra do liceu, vivo sozinha desde os 18 anos e o meu p…

Poc a poc

Lembro-me do primeiro dia. Vai ser difícil mas eu vou conseguir. E consegui. Revolvidos mais de 12 meses já conhecia os cantos às ruas, embora se me escapassem a maioria dos nomes. Eu sei que dizer “já” depois de se ter passado mais de um ano denota um certo atraso. (Por isso escrevi 12 meses, a ver se disfarçava). Mas eu sou assim. Sempre demasiado concentrada nos meus monólogos comigo mesma para reparar nos caminhos que traço. Disso ocupam-se os pés. Infelizmente os pés não têm memória nem GPS com alarme. E uuups, já passei a porta de casa. Eu moro uns números mais acima e uma rua mais abaixo.
Mas pouco a pouco tudo se foi discernindo com uma clareza informal. Já fazia parte de mim saber onde estavam os super mercados, as frutarias, os correios e os restaurantes. Conhecia as pessoas da farmácia, o senhor da loja de arranjar os sapatos e o da loja de arranjar os computadores. Dizia bom dia aos vizinhos e pedia-lhes coisas emprestadas. A vizinha que passou os primeiros 12 meses (e…

Adaptações

É claro que vir viver para Barcelona não acarreta o mesmo tipo de adaptação que ir viver, por exemplo, para o Pólo Norte. Os mais de 20 nomes de tapas que têm aqui são, seguramente, mais fáceis de pronunciar que os mais de 20 nomes que os pólo nórdicos têm para a neve. E depois de uma pessoa se habituar às palavras proibidas – Espanha, região e dialecto – já não há perigo. Em nenhum momento vai aparecer um urso polar. E só neva um dia por ano na cidade, a cada 50 anos. Lentamente o estômago vai-se habituando a almoçar entre as duas e as 3 da tarde, aguentando muitas vezes até às 4. Pelo que nunca tem fome antes das 9 da noite. Os ouvidos acostumam-se à orquestra de idiomas que se escuta nas ruas. Expoente máximo do antagonismo nesta terra tão dos seus e tão de todo o mundo. O cheiro que se sente pelos passeios estreitos do centro e que roça o nauseabundo, assimila-se como um quase charme dos bairros mais antigos. Portanto não incomoda. Já o calor do metro incomoda sempre, mas as vi…

Le joie de vivre em mudança

Chamei-lhe caixinha de bombons. Acampamento cigano teria sido muito mais adequado. Porque na caixinha os bombons estão meticulosamente arrumados, deliciosamente aprumados, cada um no espaço que lhe é confinado. Ora no espaço da minha casa tudo está confinado não a um espaço específico mas aonde haja espaço (ponto).
Foi uma semana de vida encaixotada. Vida despedaçada por sacos de plástico, caixas de cartão, malas de viagem e bolsas de pano. Vida perdida à procura de pedaços de vida desarrumados.
Na caixinha de bombons também não há inundações. Na segunda noite tinha o lava loiça da cozinha a desaguar pelo chão afora. Agora já está tudo bem. Já não tomo banho de água fria porque já sei ligar o gás, já fui ao IKEA, já sintonizei os canais da televisão que acidentalmente tinha desmarcado. Também já durmo com lençóis e almofada ortopédica, ainda que sem fronha. Mas pelo menos tenho talheres. Na primeira manhã despertei com aquela sensação de orgulho e glória que a vaidade nos traz de ve…

O que é que eu faço?

Quando alguém diz que estudou Ciências da Comunicaçao as pessoas franzem o sobrolho e dizem, com pouco entusiasmo e alguma reticencia “ah.. jornalismo?”. Nao. Jornalismo é jornalismo. Ciências da Comunicaçao nao é só jornalismo. É publicidade, marketing, comunicaçao empresarial, audiovisuais e outras coisas que tais. Ok. Entao em que é que trabalhas? Eu sou Directora de Comunicaçao. E aqui se apaga por completo a já intermitente chama de entusiasmo. O “ah” desfaz-se num olhar mudo e perdido. Cortemos as deambulaçoes. Mas o que é que tu fazes? Se eu fosse médica, padeira, bailarina, dentista, policia, advogada, bombeira, secretária, jornalista, actriz, designer, engenheira, professora, psicóloga, pescadora... enfim, se eu fosse outra coisa qualquer, de certeza que nao tinha de responder a este tipo de perguntas. Nada contra os inquiridores. Eu também nao sei o que é que faz um engenheiro industrial ou um técnico de sistemas. Mas deixem-me que vos explique o meu impasse na resposta a es…