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A mostrar mensagens de Julho, 2010

Poc a poc

Lembro-me do primeiro dia. Vai ser difícil mas eu vou conseguir. E consegui. Revolvidos mais de 12 meses já conhecia os cantos às ruas, embora se me escapassem a maioria dos nomes. Eu sei que dizer “já” depois de se ter passado mais de um ano denota um certo atraso. (Por isso escrevi 12 meses, a ver se disfarçava). Mas eu sou assim. Sempre demasiado concentrada nos meus monólogos comigo mesma para reparar nos caminhos que traço. Disso ocupam-se os pés. Infelizmente os pés não têm memória nem GPS com alarme. E uuups, já passei a porta de casa. Eu moro uns números mais acima e uma rua mais abaixo.
Mas pouco a pouco tudo se foi discernindo com uma clareza informal. Já fazia parte de mim saber onde estavam os super mercados, as frutarias, os correios e os restaurantes. Conhecia as pessoas da farmácia, o senhor da loja de arranjar os sapatos e o da loja de arranjar os computadores. Dizia bom dia aos vizinhos e pedia-lhes coisas emprestadas. A vizinha que passou os primeiros 12 meses (e…

Adaptações

É claro que vir viver para Barcelona não acarreta o mesmo tipo de adaptação que ir viver, por exemplo, para o Pólo Norte. Os mais de 20 nomes de tapas que têm aqui são, seguramente, mais fáceis de pronunciar que os mais de 20 nomes que os pólo nórdicos têm para a neve. E depois de uma pessoa se habituar às palavras proibidas – Espanha, região e dialecto – já não há perigo. Em nenhum momento vai aparecer um urso polar. E só neva um dia por ano na cidade, a cada 50 anos. Lentamente o estômago vai-se habituando a almoçar entre as duas e as 3 da tarde, aguentando muitas vezes até às 4. Pelo que nunca tem fome antes das 9 da noite. Os ouvidos acostumam-se à orquestra de idiomas que se escuta nas ruas. Expoente máximo do antagonismo nesta terra tão dos seus e tão de todo o mundo. O cheiro que se sente pelos passeios estreitos do centro e que roça o nauseabundo, assimila-se como um quase charme dos bairros mais antigos. Portanto não incomoda. Já o calor do metro incomoda sempre, mas as vi…

Le joie de vivre em mudança

Chamei-lhe caixinha de bombons. Acampamento cigano teria sido muito mais adequado. Porque na caixinha os bombons estão meticulosamente arrumados, deliciosamente aprumados, cada um no espaço que lhe é confinado. Ora no espaço da minha casa tudo está confinado não a um espaço específico mas aonde haja espaço (ponto).
Foi uma semana de vida encaixotada. Vida despedaçada por sacos de plástico, caixas de cartão, malas de viagem e bolsas de pano. Vida perdida à procura de pedaços de vida desarrumados.
Na caixinha de bombons também não há inundações. Na segunda noite tinha o lava loiça da cozinha a desaguar pelo chão afora. Agora já está tudo bem. Já não tomo banho de água fria porque já sei ligar o gás, já fui ao IKEA, já sintonizei os canais da televisão que acidentalmente tinha desmarcado. Também já durmo com lençóis e almofada ortopédica, ainda que sem fronha. Mas pelo menos tenho talheres. Na primeira manhã despertei com aquela sensação de orgulho e glória que a vaidade nos traz de ve…

O que é que eu faço?

Quando alguém diz que estudou Ciências da Comunicaçao as pessoas franzem o sobrolho e dizem, com pouco entusiasmo e alguma reticencia “ah.. jornalismo?”. Nao. Jornalismo é jornalismo. Ciências da Comunicaçao nao é só jornalismo. É publicidade, marketing, comunicaçao empresarial, audiovisuais e outras coisas que tais. Ok. Entao em que é que trabalhas? Eu sou Directora de Comunicaçao. E aqui se apaga por completo a já intermitente chama de entusiasmo. O “ah” desfaz-se num olhar mudo e perdido. Cortemos as deambulaçoes. Mas o que é que tu fazes? Se eu fosse médica, padeira, bailarina, dentista, policia, advogada, bombeira, secretária, jornalista, actriz, designer, engenheira, professora, psicóloga, pescadora... enfim, se eu fosse outra coisa qualquer, de certeza que nao tinha de responder a este tipo de perguntas. Nada contra os inquiridores. Eu também nao sei o que é que faz um engenheiro industrial ou um técnico de sistemas. Mas deixem-me que vos explique o meu impasse na resposta a es…

Quem nao quer ser campeao?

Adepta de Portugal. Adepta do Brasil. No entanto aqui estou eu, a viver no país que se sagrou campeao do mundo ontem à noite, como toda a gente dever ter reaprado - desde o Pólo Norte até à Patagónia, passando pela Mongólia.

Se até na Catalunha se celebrou o feito, bem podem imaginar o impacto desta vitória. Espanha é campea da Europa. Espanha é campea do mundo. O que deveria impulsionar a Suiça para os 10 melhores países no ranking da FIFA. Diz que é só queijo com buracos, chocolate refinado e muitos relógios, mas na volta das horas foram a única derrota dos campeoes.

“E assim se ganha um mudial” dizem-me com um esgar de desdém. Desejam-me “melhor sorte no próximo”, com vontade que nem sequer nos classifiquemos. E sorriem e choram, abraçam-se e pulam. Soltam foguetes, literalmente, e saem à rua enrolados na bandeira de sua alteza, Juanca para os amigos.

Os jogadores sao as pessoas mais felizes do Mundo. Madrid recebe-os em festa. Há muito poucos espanhóies em Espanha mas desta vez abrem…

Vou viver numa caixinha de bombons

Depois de lavatórios da casa de banho no meio da sala. Depois de varandas em ruínas e escadas sem luz. Depois de bairros e prédios tão suspeitosos que temi a perda de um rim, ou outro órgão popular no mercado negro. Depois de duas semanas exaustivas a procurar e a ver casas que simplesmente não serviam, rendi-me a um “sub-ático” ao lado da Sagrada Família. O orçamento limitado encaixa, o bairro não tem prostitutas, nem imigrantes/actividades ilegais, pelo menos à vista. Não pedem 8 meses de fiança nem comissões anuais alarves. O edifício está em óptimo estado de conservação. Há um elevador mas de qualquer modo as escadas têm luz. Há móveis, frigorífico, máquina de lavar a roupa, máquina de fazer tostas e micro-ondas. Tudo novo e bonito. Não há é cama, mas ninguém é perfeito não é?
E há uma linda varanda desde a qual os olhos desenham, refastelados, a sky line de Barcelona, da montanha até ao mar. Com a Sagrada Família tão perto que dá vontade de tocar.
Posto que na varanda cabe u…

Só...

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Viver com duas grandes amigas em Barcelona comporta um problema grave: o dia em que elas se vão embora. E não digo o dia em que elas se vão embora porque vão de férias. Digo o dia em que eu acordo e as prateleiras estão vazias, as camas despidas e as paredes sem cor. O dia em que já não há perigo de me enganar na escova de dentes porque ela está ali sozinha. Como eu. A partir de agora tenho de ter sempre comida em casa, só posso contar com as minhas roupas, com os meus livros e com o meu próprio stock de…tudo. Não me posso esquecer das chaves. Terei de falar comigo mesma quando entre na minha nova casa porque não haverá ninguém para me ouvir. Só posso contar com o espelho para me dizer o que vestir e se voltar a ter uma crise de urticária não há quem me acompanhe ao hospital. Acabou-se o visionamento proibido de filmes de terror antes de ir dormir, a constante competição para ver quem prega mais sutos pela casa, a cumplicidade das saídas, as idas de compras e os passeios turísticos.…

um atrás do outro...

“O país inteiro está com vocês” repetia um dos comentadores da Rádio Globo, naquele tom emotivo e eloquente que só os locutores brasileiros têm. Contam cada passe como se fosse um golo.

E de repente contaram um golo!

Primeiro ouvi as pessoas gritarem no bar, porque os golos da rádio chegam muito depois que os da televisão. Sorri. O bar estava cheio de brasileiros, a qualquer momento seria golo do Brasil na rádio também. Mas então porque é que a bola estava do lado da baliza do Julio César? Desci correndo. Pois é, a Holanda tinha acabado de empatar. E mal o comentador acabou de dizer que o golo não significava nada a não ser a prorrogação, aqueles mesmos gritos voltaram a ouvir-se. O Brasil, a canarinha, o pentacampeão, estava a perder. E a partir de aí a equipe também se perdeu. Perderam-se num nervosismo ululante, num ne savoir pas faire irritante, como se fossem principiantes. O país inteiro e os milhares de brasileiros espalhados pelo mundo sofriam. Eu ouvia a rádio tortuosamente,…