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A mostrar mensagens de Agosto, 2010

Vª. Exª.

Ninguém gosta de receber cartas das Finanças. Só pode ser mau augúrio. Agora imagine-se receber uma carta do ministério das finanças de Portugal quando se está legalmente registado e a pagar impostos em Espanha. Pior, quando as únicas pessoas que sabem a nossa nova morada em Barcelona são os nossos pais. Será que as finanças têm serviços de espionagem? Algum co-branding com a CIA? E, assim sendo, porque se dariam ao trabalho de investigar a minha nova morada? Eu, uma imigrante mais nos 27.000 que pululam por Barceolna. Ahhh! Será que inventaram algum imposto do imigrante? Ou multa por abandono da pátria não declarado?
Enfim, todas os medos se dissiparam quando abri a carta, a qual se referia à minha pessoa como Vª Exª, o que me tranquilizou bastante. Na ordem da boa sintaxe e coerência textual, a seguir a Vª Exª não poder vir nada como “é procurado pelas autoridades por imigração ilícita e dívida para com o Estado Português”. E de facto não vinha. A Vª Exª procedem 5 linhas com nomes…

Nunca confiar num alquimista

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Paulo Coelho. Já tinha ouvido falar mais vezes que as estrelas que cintilam nesta noite de Verão. Nunca tinha lido. Até já tinha vergonha.
Abram-se as janelas da alma para o zen e conjuguem-se o yang e o yin na euforia do entendimento de todos entendimentos, ou dê-se o caso de achar que Deus, lendas pessoais e vozes do coração são balelas, é sempre leitura obrigatória. É um estilo particular. Uma recriação moderna do Padre Vieira com camelos em vez de peixes. Às vezes admiro-me com a verdade dos pensamentos. Ás vezes desejo estar outra vez a ler o Diário da Carrie Bradshaw na adolescencia.
Quem é este senhor para vir pregar a voz do mundo na literatura? Mas bolas, aqui e ali tem mesmo razão. Dá que pensar. E assim lia eu, imbuída entre o profundo e o mas isto nunca mais acaba, quando aconteceu o inesperado: um momento hilariante! E, no entanto, é o momento mais dramático da trama. A morte ameaça. O personagem principal e o alquimista foram capturados por um clã do deserto que está em …

Férias no Algarve

Férias no Algarve é tradição mas é moderno, é chique mas é cliché. É famoso mas não é Ibiza.
Férias no Algarve é comer uma bola de Berlim como se fosse a primeira vez, porque a última já foi há mais tempo do que o que alcança a memória das glândulas salivares. Férias no Algarve é intercalar a bola de Berlim com pastéis de amêndoa. Férias no Algarve é areia que desliza pelos dedos dos pés e mar que não dá comichão. Em vez das águas contaminadas de Barcelona e da areia artificial feita de pó.
Férias no Algarve é o comboio da praia do Barril, o barco das Ilhas Desertas e o trânsito na volta da praia da Falésia. Férias no Algarve é ouvir a pronúncia do Norte na toalha ao lado e na da frente e na de trás também. Ou então espanhol.
Férias no Algarve é relembrar que os concertos na praia são, literalmente, na praia e portanto todo o tipo de calçado alto é inadequado.
Férias no Algarve são as avionetas que enfeitam o céu, anunciando as melhores festas de cada noite, ou pelo menos as que têm m…

Eu vou ver este filme!

Porque tem pedaços da minha história.

Os anos vão passando. Já lá vão 3. Mas as memórias tingidas de saudade não passam com os anos. Estão sempre ali na fronteira do sonho como o sonho que se tornou realidade. A realidade que superou o sonho. E essas memórias trazem arrepios e sorrisos tontos. Trazem lágrimas pequeninas de qualquer coisa. Qualquer coisa entre a melancolia e os dias mais felizes da minha vida.
Eu nem sequer sabia que aquela cidade existia e ainda sabia menos ao que ia. E hoje sei que não poderia ter existido sem ter ido. Sem ter ido para lá.
São tantas histórias e tantas pessoas, tantos caminhos e tantas vezes o mesmo caminho. Que é fascinante como uma só imagem me faz percorrer tudo outra vez. Uma só imagem num só segundo.
É a imagem da praça onde todos os caminhos vão dar. Não, não é Roma. É Siena.

A penetra

Barcelona é conhecida pelo Barça, pela arquitectura sonhadora de Gaudí, pelo fervilhante ambiente nocturno e pelas baratas. As “cucarachas”, principalmente no centro que é a parte mais antiga, são um símbolo da cidade. Tão característico como a estátua do lagarto no Parc Guell.
A Rita afirma ter vislumbrado pequenas baratas na nossa antiga casa. Tão pequenas que eu nunca vi nenhuma. De qualquer modo baratas pequenas não me causam repugnância por aí além. E as grandes também não. Dizia eu. Até ver uma a entrar, formosa e segura, na minha casa de banho. AAAAAAAAAAAAAAAAAAH! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! O QUE É QUE EU FAÇO? O QUE É QUE EU FAÇO? AAAAAAAAAAAAH! A primeira coisa que me atravessou o cérebro em estado de choque foi pôr-me em cima de uma cadeira e continuar a gritar até alguém aniquilar a barata. Um pensamento que durou apenas o suficiente para eu perceber que ou aniquilava eu a barata ou ficávamos a viver as duas juntas. O pressentimento de falta de química entre nós deu-me …

Vítima de extravio

Quis agredir a cabeça com a porta e vice versa. Quis gritar até a Sagrada Família estremecer. O que vai acontecer de qualquer maneira, quando o AVE lhe passar por baixo.
Porquê? Porquê? Como é que é possível? E enquanto questionava a minha própria imprudência e estupidez (posto que estava a falar com o meu reflexo no espelho a estupidez ganhou ainda mais veracidade) não pude deixar de recorrer ao choro, para engrandecer este drama megalómano que é perder a identidade. O bilhete de identidade. Estava na mala, como todos os dias. Só que em algum momento se há de ter lançado silenciosamente em queda livre sem que eu me apercebesse. E no dia seguinte já não estava na mala. Calma, respira, eu tenho o passaporte. Contando que o consigo manter localizável nos meus pertences a tragédia reduz-se consideravelmente. Ainda assim.. PORQUÊ? PORQUÊ? COMO É QUE É POSSÍVEL?
Eu tenho um curso superior e um mestrado. O meu nome consta no quadro de honra do liceu, vivo sozinha desde os 18 anos e o meu p…