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A mostrar mensagens de Outubro, 2010

Meio dia e quartos

Eu dizia “meio-dia”. E perguntavam “mas a que horas?”. E eu voltava a dizer “ao meio-dia!”. E voltavam a perguntar-me “mas ao meio-dia a que horas?”. E, por fim, eu dizia “já disse, ao meio-dia”. E apareciam às duas da tarde. Levou-me algum tempo para perceber que o meio dia espanhol não é igual ao meio dia português. O meio dia espanhol não se fica pelas 12, alarga-se até às 2/3 da tarde. Não é uma hora precisa, é uma franja horária vaga. E uma vez que isto já estava sedimentado, resolvi aprender catalão. Eu não sei como é que se dizem as horas em chinês, mas de certeza que é mais simples que em catalão. São muito práticos os chineses. Já os catalães, no que toca a dizer as horas, são uns filósofos, um bando de Nietzsches em estado puro! De tal maneira que, em alguns casos, entre que terminam de dizer as horas e a pessoa termina de fazer as contas para saber que horas são, a hora já mudou.
Senão vejamos: são duas e um quarto: é um quarto de três; são duas e vinte e cinco: passam dez…

O sol cansou-se...

Durante uns dias ainda me fui enganando. Um casaco curto disfarçava. Mas agora, face ao escurinho que se abate pela cidade quando apenas são 7.30, e às pétalas varridas na minha varanda alagada, é inútil continuar o engodo. Acabou-se o cheiro a água salgada e o chapéu de palha no hall de entrada. As sandálias já não podem sair à noite e as noites já não nos convidam a sair. O bronze esvai-se sem piedade, pouco a pouco, irrecuperável, até ao próximo Verão. O vento sacode ondas e persianas e a última vez que fui à praia parece estar mais longe que a última vez que perdi o guarda-chuva.
Lembro-me dos primeiros dias de amor e primavera. Que linda que é Barcelona quando começa o bom tempo! Que alegres que são as ruas e as pessoas e todos os dias parecem felizes. Vê-se pelas cores dos vernizes: rosas choque, azuis Channel e verdes fluorescentes. Agora, a moda da estação são os alertas laranjas e as bandeiras vermelhas.
Findada a relação com o leque e o céu sem nuvens, começa um compromisso…

Patinagem no gelo

Eu disse-lhe “vamos fazer alguma coisa interessante” e ela respondeu “que tal patinagem no gelo?”. É o que sucede, quando uma trava amizade com norueguesas. Se eu tivesse arranjado uma amiga brasileira, teria passado a tarde de Domigo num pagode à beira mar. Em vez disso, arranquei as luvas negras da gaveta e juntei-as às meias com dedinhos e à blusa de manga comprida. À hora do jogo de futebol, estávamos no pavilhão de gelo ao lado do estádio.
É uma carga de trabalhos para calçar os patins e uma vez postos não há nada mais frustrante que ouvir: “tens os patins mal apertados, saltaste um buraco, assim vais cair”. Vexame. Dez minutos de luta atirados para o ar. Se a senhora não me tivesse dado um patim com cordões desfiados eu tinha conseguido enfiá-los no buraco que faltava. Vai de trocar de patins, enquanto ela já se avançava em explicações para principiantes. Como estava ocupada a apertar os patins não prestei atenção e tive de pedir à minha amiga que me recapitulasse. “Para avanç…

Meio sonho

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Quando o Ricky Rubio não consegue entradas grátis para o jogo dos Lakers contra o F:C Barcelona e nós sim, é porque atingimos o nível máximo da sigla RP. Para os leigos do basketball os Lakers são os campeões da NBA e o Ricky Rubio é a estrela do F.C.Barcelona, tendo também já passado pela NBA. Apesar de ser mais novo do que eu.
Os Lakers vieram defrontar o F.C. Barcelona no campo do Estádio Olímpico e 17.000 pessoas foram ver. Quantas é que cabem lá dentro sentadinhas para um jogo de basket? Pois precisamente 17.000. Daí se deduz o complicado que era conseguir bilhetes. Só que uma vez um promotor convidou-me para uma festa onde eu conheci o director de outra discoteca, que por sua vez me apresentou ao director da zona VIP da sua discoteca, o qual estava na festa de lançamento da nova garrafa da Heineken, à qual eu compareci por, cobrando, a convite de outro promotor, e comentei o quanto queria ir ao jogo. Pois no dia seguinte ele (o director da zona vip) arranjou 4 bilhetes e lá fomo…

Barcelona, onde tudo é possível....

Hoje estou orgulhosa de mim mesma. Normalmente é sempre o meu pai quem transborda orgulho da sua primogénita. Mas hoje não. Hoje sou eu. Sou eu que estou orgulhosa da educação que me deram, dos valores que criaram em mim. Estou orgulhosa de ter acabado de conhecer toda a equipa dos L.A Lakers e ter dito adeus vou para casa. E eu sou fã dos Lakers!
Estou orgulhosa de ter um trabalho que consegui sozinha, pelo meu currículo e pela boa entrevista. Orgulhosa de ter mantido esse trabalho pelos bons resultados aportados à empresa. Não pagam muito bem, não. Mas faço o que estudei, faço o que gosto. Podia ganhar 10 vezes mais? E mais de 10 vezes mais? Sim, podia.
Em Barcelona surgem todo o tipo de ofertas. E eu estou orgulhosa de escolher apenas aquelas que considero interessantes. Infelizmente são as pior pagas. Mas oh! A dignidade não tem preço.
Agora até já me pagam para ir a eventos. O que está muito bem sim senhor e vai servir lindamente para cobrir os excessos telefónicos deste mês. Além…

Vaga

A Europa chamou e Barcelona respondeu. Quando ouvi dizer que iam fazer greve (vaga em catalão) nunca pensei que me encontraria com as portas do metro fechadas e as paragens de autocarro com lugar livre no banco de espera. Correcção, com todo o banco de espera livre. O que significa que tive de ir a pé desde a Sagrada Família até ao centro, onde reside o meu local de trabalho e onde se desenrolou a catarse da revolta.

Ontem, Barcelona estava algures entre Nápoles com as suas montanhas de lixo acumuladas pela via pública, Paris no Mai 68 e o Porto com os super dragões depois de uma derrota em casa contra o Benfica. As lojas estavam fechadas ou abertas a meia haste, a polícia de choque pululava por todos os lados e os bombeiros andavam muito atarefados a apagar carros e contentores em chamas. Esperta que só ela, resolvi sair do trabalho na hora do jogo do FCB, convencida de que estaria toda a gente a ver a partida. Convicção que durou pouco. Foi sair e observar que não havia táxis na pa…

A ilha

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Se eu tivesse ido a Ibiza com as minhas amigas de certeza que a história deste post seria diferente. Mas, como nenhuma delas estava disponível, fui com dois amigos catalães. Razão pela qual as memórias ibizencas se resumem numa rotina compulsiva de festa - praia/piscina do hotel com paragem pela casa partida para dormir até às duas tarde. Eu ainda tentei que me levassem ao castelo mas eles tinham os seus planos anti-culturais demasiado bem definidos. E, mais que isso, tinham as chaves do carro, a carta de condução e, efectivamente, a capacidade de conduzir. Coisa que eu já perdi há algum tempo. Então, como highlights de Ibiza tudo o que tenho para contar foi quando fomos a uma “cala” comer sardinhas, ou quando caí de rabo no meio do passeio do porto, perante o olhar de escárnio de várias pessoas. Quando fomos comer sardinhas, na orla do mar, num pedaço de areia perdido detrás de uma montanha ao abrigo das estrelas, assim tal e qual de edílico como soa, eu só comi pão com salada. P…