Covas d'en Xoroi

Diz-se que o descobriram quando nevou em Menorca. Seguiram as pegadas que deixara para trás sem saber. Passo por passo chegaram às grutas onde o indigente se albergava. E aí, nesse palácio rochoso com infinitas assoalhadas e vista para o mar, encontraram-na. A rapariga que já ninguém dava por viva. Afinal, tinham passado 10 anos desde que ele a raptou e escravizou. Porque ele tinha uma profissão à margem da lei, ladrão, e vivia dentro dos benefícios naturais da separação da Pangeia, mas no fundo era uma pessoa convencional. Portanto precisava de mulher e filhos. Como não era exatamente o que se chama um bom partido, uma das vezes que foi roubar batatas roubou também uma moça da aldeia. Fácil. Nada que possa chocar as nossas mentes futuristas conhecedoras de casos em que pais prendem filhas nas caves e constituem uma família paralela com elas. O curioso desta estória é que o afamado delinquente não tinha uma orelha. E isso valeu o nome às grutas mais famosas de Menorca: Covas d’en Xoroi (grutas do sem orelha, ou poderíamos dizer orelheta?).
No cenário deste filme de terror vislumbramos agora a discoteca mais badalada de toda a ilha. Não é que haja muitas realmente, mas eu sim já estive em muitas, e nem a Pacha ou o Blue Marlin em Ibiza, nem Nikki Beach, nem os alucinantes clubs em Standford Hotel NY ou Hotel W Barcelona me pareceram tão surpreendentes. A Cova d’en Xoroi é uma discoteca sem tecto, nem paredes, porque tudo é gruta, tudo é pedra. Música e bebidas à parte, o espaço é uma criação natural. Um penhasco em cima do mar, com um labirinto de grutas e covas, onde as lágrimas soluçantes da jovem raptada foram substituídas por decibéis de música electrónica e irritante. Absolutamente fascinante.








Chegar lá não foi fácil e dar com o caminho para casa foi ainda mais difícil. Menorca não tem muita intimidade com autoestradas nem postes de iluminação, ela é mais caminhos de terra escuros e sinuosos. Que percorremos herculeamente para trás e para frente, a 50km/hora hora num jeep aberto sem possibilidade de fechar as janelas e usando a luz do telemóvel para ver o mapa. Perdemo-nos uma ou duas vezes, ou até mesmo 3, posto que as escassas indicações que avistámos estavam incorrectas. Vamos, que durante o dia deve ser um passeio precioso. Mas com a noite para lá de cerrada, num carro open space, facilmente ultrapassado pela manada de vacas gordas que vimos a pastar e desconhecendo o caminho na íntegra, eu pessoalmente não recomendo.



Valeu a pena porque sobrevivemos ilesos. E porque o sumptuoso coque que montei no cabelo não se desfez. Diria que foi milagre, tendo em conta a quantidade de ar em movimento que levei na tromba. Mas enfim, foi praticamente uma visita cultural. É uma discoteca paleolítica (quantas noites se pode dançar numa assim?), com vistas de lua e mar, capazes de aliciar qualquer suicida em potencia, e repleta de história – a do ladrão sequestrador.



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