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A mostrar mensagens de 2015

A fuga das flores

Fala-se muito na fuga de cérebros, mas ninguém se lembra da fuga de flores. Afinal, além dos neurónios, há mais boas qualidades dos portugueses e portuguesas que se estão a perder, devido aos fenómenos migratórios. O país não só está a ficar mais velho como, muito provavelmente, está também a ficar mais feio. Quem me alertou para este facto foi o simpatiquíssimo senhor do check-in da TAp, no meu voo de regresso a Barcelona. A genialidade vem de onde menos se espera, quando a única esperança que acalentamos é que não nos cobrem extra por excesso de peso nem percam a mala pelo caminho. E, a poder ser, que o avião não caia. Que é uma coisa que dá sempre jeito. Mas então o senhor disse-me assim: - Vai para Barcelona? - Sim. - E porquê? - Porque vivo lá. - Ah vive lá? Mas então e Lisboa, não? - Não, não. Há muitos anos que não. - Oh! Vão-se as flores e ficam os vasos! Lá está, coisa nunca antes assinalada. Porque há demasiado foco no talento e na inteligência.  Há um grande temor de se es…

Planeamento familiar

Queríamos passar um dia em família fora de casa. Fazer alguma coisa longe da televisão e do écran do computador.  Sair daquela apatia natalícia e passar mais de meia hora sem comer. A minha primeira tentativa foi convencê-los a ir fazer patinagem no gelo, parece que havia um ringue na Praça do Comércio. A moção foi chumbada sem debate. Entre “tenho medo de cair e que alguém me passe em cima dos dedos com os patins” e “até aos 30 anos sempre quis fazer, nunca fiz. Mas se for fazer agora quebra tudo” era iminente mudar de plano. Vamos ao Oceanário ver os pinguins! E assim vemos o rio e passeamos pelo parque das Nações. Esta proposta já angariou mais votos. Ainda se ouviu um “Tenho uma ideia melhor, vamos ao museu do design”, mas ninguém achou que essa ideia fosse melhor. Porém, houve uma contra-proposta  para ir ao Zoo, que dividiu as hostes.   Eu já estava ela por ela, o importante era desgarrar-me do sofá, por mim até podíamos ir ao bosque apanhar cogumelos! Todos prontos para ir …

Crónicas de voo

No avião de Barcelona a Lisboa, calhou-me o assento B. Toda a gente sabe que os assentos B e E são os menos cotizados por serem os do meio. Mas é sempre assim: sempre que faço o check in com uma senhora vou parar ao meio, sempre que é um senhor tenho a janela ou o corredor. Talvez seja só coincidência, talvez seja essa lendária solidariedade feminina, que até hoje nunca ninguém viu. O caso é que, estando no meio, até nem estava mal, entre duas senhoras aparentemente normais. Lembro-me de uma vez em que estava no assento  do corredor e a senhora do meio começou a cortar as unhas dos pés. Não foi um espetáculo agradável de ver, nem bonito de cheirar. Depois da descolagem o sol entrou pela janela e rebentou-nos as retinas a mim, e à do assento C, enquanto a da janela gozava a vista. Mas a do assento C fez para ali um teatro, uma tragédia grega, praticamente a tentar tapar os olhos com os cotovelos, que a da janela se sentiu constrangida, desceu a mini persiana da janela e pediu desculp…

O Brunch já não é o que era, agora é muito melhor!

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Depois da moda do brunch, essa fusão entre pequeno-almoço e almoço à inglesa, chegou a moda das brunch parties, a meu ver muito mais deliciosa. É algo que se passa cada Sábado em Nova York, na minha festa mais preferida de todas as festas, o Lavo brunch, e agora acontece em Barcelona aos Domingos. Começámos na festa Retox, com o delicioso buffet do Hotel W, que nunca deixa a desejar na apresentação e qualidade dos produtos. Tudo muito bom, tanto para a vista como para o paladar. Havia tanta coisa que não sei como resumir. Andei ali a saltitar entre uma mesa enorme cheia de sobremesas e doces e outra com vários apetizers e tapas, sem que faltassem panquecas cm nutella e batidos de fruta e chupa-chupas gigantes cheios de cores! Tudo  divinamente “cookie”. O dia de sol estendia-se pela piscina e pela praia, num ambiente lounge distendido, ideal para socializar e beber um copo. Entretanto, no outro lado da cidade, o brunch do Gatsby, (um restaurante/club onde os jantares são acompanhad…

Uber vuelveeee!

Não gosto de falar dos taxistas como grupo homogéneo, mas gostava muito de denunciar alguns taxistas de Barcelona que trabalham de noite. Porque não são profissionais, são especuladores à procura de turistas bêbedos a quem enganar. Encheram-se de orgulho e brio para expulsar o Uber de Espanha, denunciando concorrência desleal, mas para fazer fila na paragem de táxi da zona das discotecas às 4 da manhã, que é aliás quando mais se precisa de um táxi, ‘tá quieto. Estou fartamente farta de que vários táxis não façam fila na paragem, não respeitem a ordem de espera e, principalmente, só parem e só levem quem lhes apetece. Entendo que certos clientes, principalmente saídos da discoteca às 4 da manhã, possam parecer ameaçadores em distintas maneiras. Mas prometo que não é o meu caso e já perdi a conta do número de vezes que consegui, depois de muito vaguear, parar um táxi livre para que o motorista se recusasse a levar-me ao meu destino por não o considerar suficientemente lucrativo (ou a…

Mataram o i

Hoje descobri que fecharam o jornal i, onde trabalhava, trabalha ainda sem saber bem onde, um ex colega e amigo meu da universidade. Havia ali muita gente da minha universidade, essa dos “80 melhores alunos do país”, que é o que nos dizem no primeiro dia de aulas. Havia ali muita gente boa, gente que escreve mesmo bem que eu sei, e que conseguiu construir um jornal vencedor. Gente que deu um look diferente às notícias, espaço de antena aos desportos “plebeus” e uma maneira inovadora de contar a realidade sem perder o rigor informativo. Os prémios que o i ganhou falam por si.   Não sei os detalhes da decisão de matar o i. Mas sei que um jornal é uma empresa, um negócio puro e duro. Por isso, como todas as empresas, os jornais também procuram mão de obra barata e estagiários infinitos. Os jornais também se vendem à publicidade, aos interesses políticos e aos financiadores.  Os jornais também mudam de marca e de conceito, e metem cunhas e fazem despedimentos improcedentes. É engraçado …

Black Friday

Há dois anos, em Nova York, descobri o que era a Black Friday.  Descobri que havia um dia em que os saldos saltavam para um outro nível e todas as lojas sem exceção faziam ofertas de levar o ser humano à insanidade. As pessoas acampavam, literalmente, à porta das lojas, à espera que abrissem.  Foi um dia histórico para mim, a voar de loja em loja num centro comercial como uma galinha histérica. Orgulho-me até hoje das compras que fiz nesse dia e das marcas de haute couture que adquiri por -50%. Senti-me toda uma dealer!  Depois voltei a Espanha e aqui ninguém sabia o que era isso da Sexta-feira negra. Foi então com grande espanto, que este ano vi uma campanha enorme a anunciar a Black Friday em Barcelona. Na televisão, na rádio, online e no telefone. Recebi um sms da farmácia da esquina a dizer que estaria com promoções de Black Friday! Foram mesmo muitas as lojas e os centros comerciais que aderiram à mania, o El Corte Ingles incluído, e puseram-se de fim-de-semana de ofertas. Obvi…

"Somos el resultado de todo lo que hemos vivido"

Há pedacinhos de canções que nos roubam o coração. Há versos que nos marcam as memórias às cores, como os separadores dos dossiês.  Há palavras que se juntam como se estivessem a falar de nós próprios sem nunca terem conhecido a nossa melodia.  E abraçam-nos com as suas sílabas perfeitas e embalam os nossos sonhos nas suas rimas. O replay é impulsivo, ouvimos 100 vezes seguidas porque sabe a tardes de Verão e a bolo de bolacha com chocolate (sem dar dor de barriga). Desde a primeira vez que ouvi esta canção achei a letra bonita. Bonita, assim, só, sem mais rococó. Porque a poesia pode ser muitas coisas diferentes, mas é sempre bonita.
“Somos” by  Melocos
“(…) somos Palma viendo anochecer desde tu coche viejo somos Barna,Valencia y Madrid despues de un concierto somos la Torre Eiffel encendida un 14 de febrero somos dos immigrantes hablando un idioma extrangero (…) somos el resultado de todo lo que hemos vivido somos todo lo que cada noche he soñado contigo (…) somos cada semaforo en ro…

4 golos e uma piada independentista

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Estão os “culés” todos aos saltos, um mar de gente a invadir a fonte de Canaletas. Ouvem-se pequenos explosivos a rebentar nos céus. Se por um lado fico feliz por esta vitória, 7 anos em Barcelona não deixam outra opção que ser do Barça, por outro estou desiludida. Há muita coisa a dizer sobre o Real Madrid – Barcelona. Avassalador. Inspirador. Devastador. Os jornalistas desportivos apressaram-se a chamá-lo de “Histórico”, que é uma palavra que fica sempre bem nas headlines. O que eu tenho a dizer é que não é justo. Não é justo que sempre que eu vou ver o clássico ao Camp Nou aquilo quase nem mexe. Ora empatam, ora só marcam um golo. Ora bocejo com as mãos enregeladas. Depois quando vão a Madrid é todo um bailinho, ele é 4, ele é 5, ele é 6 golos de rompante!   Fica aqui por escrito o meu descontentamento. Não é justo! Pode ser que na próxima época tenha a oportunidade de ir vero jogo ao Bernabéu, ou não, dependendo se a Catalunha fica ou sai de Espanha.
Depois deste 0 - 4 blau g…

Paris...

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Já não podemos entrar num avião sem levar o coração nas mãos. Já não podemos ligara televisão sem ouvir tiros e bombas e ver campos com centenas de refugiados. E agora, também já não podemos passear pelas ruas de Paris. Está oficialmente instalado o medo de viver. Medo de ir a um concerto e levar um tiro. Medo de sair de casa e levar com uma bomba. Não estamos na Síria, não estamos no Líbano, não somos Israel nem a Palestina, mas o medo chegou até aqui. Caminha connosco de dia, deita-se na nossa cama à noite. E as previsões não são otimistas. A Europa está toda a tremer, protagonista de um filme de terror, sem saber qual dos países será a próxima vítima. O que aconteceu ontem em Paris foi uma réplica de tantos outros ataques terroristas que já aconteceram e que em qualquer momento podem voltar a acontecer em Londres, em NY, em Madrid e, porque não, em Barcelona ou em Lisboa. Tanto faz se é a Al Qaeda ou a ISIS, o medo não responde por nomes. O medo é o pão do terrorismo e pare…

Eletro estimulação - o desporto do futuro.

Já tinha ouvido falar de treinos com eletro estimulação. Via fotos de modelos e desportistas de elite a fazer exercício com o que pareciam ser coletes salva-vidas, não fossem afogar-se em suor... Se por um lado me despertou a curiosidade, por outro também sou bastante tradicional no que toca ao desporto, correr é correr, uma perna de cada vez, não me venham cá com invenções. Mas ontem tive a oportunidade de experimentar o Ekinox fit, o único ginásio de Barcelona que treina com eletro estimulação, e posso atestar que a coisa vai muito mais além do que colocar um colete salva-vidas. Há uma experiência e uma necessidade por de trás do conceito. A experiência é um ginásio que mais parece um hotel de 5 estrelas, onde cada pessoa tem um personal trainner, um trato 100% personalizado e o seu próprio “camarim” individual para guardar as coisas e trocar de roupa com chuveiro, toalhas, chinelos e tudo mais. A necessidade nasce da falta de tempo, que não é o meu caso, mas é o caso de muita gent…

Um dia mau

Há dias maus. Dias em que o nosso castelo de sonhos se desmorona a nossos pés sem nos dar tempo de apanhar as peças. Dias em que o peito se congela de choque e é difícil respirar e é impossível parar de chorar. Dias em que nos puxam o tapete com tanta força e caímos tão fundo que parece que nunca mais nos vamos levantar. Dias de: Acabou-se. É o fim do mundo. Todo o esforço foi em vão. Ser bom é inútil e acreditar nas pessoas é um erro. Nesses dias não somos nada. Somos zero. Somos prova não superada. Somos uma sombra de desilusão, negra e deprimente. Somos a incredulidade em nós mesmos porque as palavras que nos disseram  ecoam na nossa cabeça como facadas afiadas, num ritmo rotativo. A rejeição faz o coração encolher até ficar tão pequeno que já não cabe mais nada lá dentro. A impotência dá-nos pesadelos. Há dias maus. Mas depois há o dia seguinte que é ligeiramente melhor. Pelo menos já conseguimos levantar uma perna. E dois dias depois levantamos as duas. A sombra começa a dis…

Happy Halloween!!!

Adoro o Halloween.  Em grande parte, porque gosto de qualquer desculpa para me mascarar e ter o poder de poder ser o que bem me apetecer.  Por outro lado, dia 1 é feriado e isso dá sempre uma alegria extra. Se bem que este ano caiu domingo, portanto lá se foi metade da graça do Halloween. Sim, gosto do Halloween,  mas não me mal interpretem, as caracterizações medonhas não são a minha praia. É uma antítese que carrego na alma, não consigo conceber o dispêndio de dinheiro e tempo em roupas e maquilhagem que nos fazem parecer mais feios. Para feia já tenho no calendário imensos dias: bad hair days, dias em que a nossa pele decide regressar à adolescência, dias em que dormimos mal e acordamos pior, dias em que nos sentimos inchadas, dias em que o nariz está entupido, vermelho e gotejante, dias em que os pelos das sobrancelhas roçam o limite do aceitável, etc, etc, etc. Tenho duas bolsas cheias de disfarces e nenhum deles é assustador nem feio nem me faz mais gorda. Para mim a questão …

Os opostos atraem-se

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Vi uma foto da Sara Sampaio em frente a um photocall com as marcas Balmain Paris e H&M. A Balmain vende vestidos por 2.000€, a H&M por 20€. Pensei uuuui, a Balmain não deve estar nada contente com esta associação, o seu logo de haute couture lado a lado com o da simplória H&M. Quando estudamos comunicação e marketing aprendemos que as marcas procuram associar-se a outras marcas com o mesmo nível de prestígio.  Por exemplo, a Milka com a Oreo ou com as Tuc, que é a associação mais deliciosa que me vem à cabeça. Teoricamente, a Balmain embarcar numa colaboração com a H&M, seria como o Mc Donalds lançar hambúrgueres de um Chef com estrelas Michelin. Mas a vida tem muito pouco de teoria e a comunicação não é medicina, portanto aquilo que aprendemos na universidade pode ser desconstruído que não morre ninguém. E a Balmain e a H&M fizeram-no no que parece ter sido o maior evento mediático de Nova Yorque esta temporada. Apresentaram uma coleção de luxo a preços acessí…

A rotina do tupperware

A rotina do tuperware começa com o despertador. O som do alarme é o primeiro indício de que vivemos dentro de uma rotina. O segundo é não ter lugar para nos sentarmos no metro. Não, peço desculpa, o segundo é o sol ainda estar por raiar quando nos levantamos da cama. Felizmente essa escuridão já não se abate sobre mim. A falta de lugar do metro sim. Bom, na verdade tem dias, às vezes de manhã tenho sorte.  Na rush hour das 6 da tarde vou sempre de pé. Mas a parte mais marcante da rotina do tupperware é esse momento em que estamos a fazer  o jantar e o almoço ao mesmo tempo. Seja porque cozinhamos dois pratos distintos, ou porque cozinhamos em abundância para o dia seguinte. Ou dias (às vezes faço esparguete à bolonhesa para uma semana). Depois já se sabe, é colocar a comida no tupperware e enfiá-lo na mala, mesmo se for uma Michael Korrs ou uma Kate Spade NY, porque no final de contas, se elas andam de metro também podem carregar tuppers. O micro-ondas do trabalho é uma peça chave n…

Sete anos

A contar pelos dedos, apercebi-me de que este mês completo sete anos de imigração em Barcelona. Sete anos são uma vida. Sete anos numa mesma cidade é uma primeira vez.  Até este Outubro de 2015 o recorde estava guardado em Faro, dos 12 aos 18.   Percebo agora que é normal que as palavras em espanhol atropelem as portuguesas sem que eu me dê conta do incidente. É normal que as expressões não sejam as mesmas e que, ao escrever, as letras dancem sevilhanas em vez do corridinho. É normal que já não conheça os jogadores do Benfica nem da seleção, mas saiba os nomes do 11 principal do FCB e de Espanha.  São sete anos a vê-los ganhar tudo. Sete anos que começaram com um mestrado e se desenrolaram em trabalhos que me fizeram ficar. Sete anos intercalados com 3 meses em NY que mudaram tudo em Barcelona.   Sete anos que me fazem pensar: e se tivesse envergado pela carreira jornalística, o que teria acontecido? E se tivesse ficado em Lisboa, estável e tranquila, a trabalhar na Jerónimo Martins…

O dia de Espanha

Hoje foi o dia de Espanha, um feriado que calhou mesmo bem, prolongando o fim se semana. Houve muita gente a representar o orgulho nacional com marchas e bandeiras de Espanha, incluindo em Barcelona. As grandes celebrações ocorreram em Madrid com um desfile com as forças militares, aviões a rasgar o céu às cores, o Rei, a Rainha, a Princesa, a Infanta e o Presidente do Governo. E milhares de espanhóis a aplaudir nas ruas, muitos dos quais estavam desde madrugada a guardar lugar para ver o desfile desde a primeira fila. A malta estava feliz. Até que vieram os políticos separatistas, os independentistas, os anti-sistema, pôr veneno na felicidade do país. Dizem que as celebrações custaram 800.000€, que é um estapafúrdio. Dizem que os espanhóis não descobriram a América, antes efetuaram um genocídio ao que chamaram de colonização. Dizem que o dia de Espanha é uma vergonha pespegada. E dizem, também, que não se sentem parte de Espanha.   Eu digo give me a break senhoras e senhores! Fech…

Reler é reviver

Resolvi juntar todos os posts sobre o meu Erasmus, para ver se saía dali alguma coisa com potencial editorial. Copiei todos os textos para um doc Word, imprimi e agora estou a ler e a rever um por um, aplicando as correções que me parecem pertinentes. È engraçado ver certas manias literárias que tinha na altura, expressões que usava constantemente, palavras que aprendi na universidade e, entretanto, se perderam no dicionário da memória a longo prazo. Mas o mais engraçado é reviver tudo outra vez. Relembrar as pessoas, as aventuras, as situações mais caricatas, os detalhes mais deliciosos as manifestações mais hilariantes. A primeira vez que joguei ao Parchis, o brasileiro que se chamava Douglas e a Ana o chamava de Taurus. O dia em que um padre entrou pela casa adentro e benzeu os hotéis do monopólio que estavam a ser usados como fichas de poker.  A vez em que acheguei a casa e o Menchaca estava de balde e esfregona em punho, porque a máquina de lavar tinha inundado a casa de banho. …

Olha mãe, sou eu!

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Há uns dias um amigo que não vejo há algum tempo mandou-me uma mensagem pelo facebook “acho que te vi num anúncio na televisão”. E eu não dei importância, deve-se ter confundido coitadinho.  Pegou-lhe uma partida a vontade de me rever, normal em qualquer pessoa que padece de longos períodos com a minha ausência na sua vida. Foi então que me lembrei, espera lá,  que eu filmei um anúncio de televisão para a rádio! Estranho? Pois é, mas foi mesmo. Filmei um anúncio para um programa de rádio famoso, que faz parte do mesmo grupo que vários canais de televisão espanhóis.   Aliás, lembro-me bem, foi a convite do apresentador do programa de rádio e protagonista do anúncio, num dia Invernoso, num hotel maravilhoso. Também me lembro de me terem trocado de cena e me terem mudado as falas e que, de repente, em vez de uma palavra tinha que dizer a frase mais complicada do anúncio inteiro. Foi um processo doloroso, porque eu tenho um sotaque que não se adapta bem aos ”s”, “c” e “z” espanhóis. O di…

Eu gosto é do Verão...

O casaco de cabedal fora do cabide. O lenço ao pescoço. Os leggings a cobrir cada cm de perna e as botas a subir pelos pés acima. Tudo culmina com o Frenadol em pó e o pacote de lenços na mesa de cabeceira. É oficial: acabou-se a papa doce. Entrámos na contagem decrescente para 6 meses de gripes e apostas em quem consegue arrancar mais olhos com o seu guarda-chuva. Seis meses de termómetros deprimidos, sem ultrapassar os 20 graus, e cabelos enleados nos cachecóis e nas golas dos casacos. Seis meses em que ser perde todo o trabalho do Verão, tantos dias de praia para nada, que o bronze não dura nem sequer para as festas de Natal e ano novo. Chegam as noites enquanto ainda é de tarde, embrulhadas no edredom de penas e nos lençóis de flanela. Chegam dias inteiros, semanas inteiras, de céu cinzento e poças de água, em que a televisão e o computador voltam a ser os nossos melhores amigos.
Em Agosto o mundo para e em Setembro parece que anda para trás!

Sim, mas não.

Ora diz que o sim ganhou. Mas toda a gente quer ser independente? Não. Então, não há maioria absoluta. Nem sequer há maioria juntando os dois partidos do sim. Na verdade, o grande partido do sim, Junts pel Si, teve menos votos do que nas últimas eleições, sendo que desta vez contava com mais partidos na sua formação.  Então, nem o sim ganhou nem o não perdeu, nestas eleições para o parlamento catalão que se transformaram em referendo pela independência. A democracia fez um brilharete e os catalães mostraram que querem decidir e que não vão em catigas, pelo menos a maioria.  O mediatismo da campanha do senhor Artur Mas deu-lhe cadeiras para se sentar, mas não deu no que tinha que dar. E a questão da independência continua no ar. E, entretanto, as questões que afetam a vida da população diariamente continuam a ser ignoradas. Cá andamos a nadar em águas de bacalhau, como se diz em bom português. Já escrevi várias vezes a minha opinião sobre a estória da independência e foi com cert…

O fémur da Gioconda

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Hoje vi uma notícia no telejornal que me deixou profundamente baralhada. Primeiro, o apresentador anunciou que arqueólogos italianos achavam que tinham encontrado o esqueleto da Gioconda de Da Vinci. Achei estranho, assim de repente, porque é que alguém iria descobrir um esqueleto e dizer tem pinta de ser a Gioconda?!
A notícia desenvolveu-se apenas por algum segundos, creio que por falta de mais sustento mas, basicamente, não havia esqueleto nenhum e o que aconteceu foi que encontraram um fémur num convento em Florença. Encontraram um fémur num convento em Florença... Porque é que acham que justamente esse fémur tem cara de ser o fémur da Mona Lisa e não de uma qualquer freira ou monja é algo que me transcende.  A notícia diz que vão fazer provas de ADN para confirmar que é, efetivamente, o fémur da musa de Leonardo. E aqui o meu cérebro já deu um nó. Confirmar o ADN??? Perdonaaa??? Mas então querem lá ver que a Gioconda está registada na base de dados de algum hospital de Florenç…

Sparta

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Qualquer pessoa que tenha visto o filme “300” da Warner Bros, sente um arrepio pela espinha perante a visita eminente a Sparta. Como se fossemos todos o grande Leonidas e o seu pequeno exército, a lutar contra os invasores com os seus elefantes e rinocerontes e o gostoso do Rodrigo Santoro, vestido de rei-deus mauzão, irreconhecível. Diria que a magia do cinema foi muito bem conseguida com este filme, que de Sparta tem muito pouco roçando o nadinha de nada (foi filmado do Canadá).   Confesso, pois, que o meu imaginário se rachou em mil cacos ao passear pelos destroços da acrópole e do teatro do que um dia haverá sido a temida Sparta. Nem sequer eram ruínas, eram mesmo destroços, espalhados pelo chão arenoso. Colunas caídas, pedras esburacadas e nenhum tipo de descrição ou explicação pelo caminho. Se não fosse pelas majestosas montanhas no horizonte, incisivas e imponentes, cuja entrada Leonidas e os 300 defenderam até à morte, aquilo tanto podia ser Sparta como podia ser São Brás de…

As grutas de Kapsia

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Gosto de grutas. Sei que são frias e húmidas, sei que têm aranhas colossais e outros insetos pouco apetecíveis. Sei que são escuras e claustrofóbicas, mas o que é que eu posso fazer, gosto de grutas. Há algo de viajar a uma dimensão diferente quando entramos numa gruta. Um burburinho de excitação e uma curiosidade por algo secreto e centenário. Uma estalactite cresce 1 cm cada 100 anos. Quando entramos numa gruta e vemos metros de estalactites a pender do teto e outros tantos de estalagmites a romper o chão, sabemos imediatamente que estamos a percorrer um caminho de milhares de anos. Já visitei várias grutas, porque sempre que há grutas na jogada lá vou eu.  Umas mais profundas, umas mais místicas, outras mais bonitas, outras mais secas,  mas nenhuma tão grande como a gruta de Kapsia, onde uma guia privada nos contou toda a história por detrás daquelas rochas. A gruta de Kapsia chegou ao mundo antes de Cristo, há mais de 3.000 anos, e tal como indicam os restos de cerâmica que pod…

A outra Grécia

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Todos os dias ouvimos falar da Grécia. Da crise da Grécia. Dos empréstimos da Grécia. Do desemprego da Grécia. Das manifestações da Grécia. Da saída da Grécia da União Europeia. Desliguem essas televisões, fechem esses jornais, porque ninguém nos está a contar as coisas realmente interessantes do país de Sócrates, de Aristóteles, das Olimpíadas e do queijo feta, huuum tão bom!!! Já tinha estado na Grécia há uns anos, mas apenas nas ilhas de Creta e Santorini. Achei Creta um pouco seca, com muitas rochas e pouco verde e sem grandes motivações. Já Santorini é um sonho de ilha, parece um floco de neve com cobertura de pepitas azuis, com o mar à espreita de todos os recanto. Gostaria de voltar algum dia, mas ainda não foi hoje. Hoje fui a Tolo, uma praia na zona de Nafpliou, relativamente perto de Atenas. Uma tranquilidade de praia, com pouca gente, um mar tão calmo que mais parecia uma piscina, a água morna e transparente com tons esmeralda, salpicada por ilhas aqui e ali e montanhas no…

Pela independência da independência

Qualquer dia acordo e já não vivo em Espanha, nem na União Europeia, e em vez de euros tenho francos catalães. Ainda se fossem libras esterlinas! Os meus pais disseram-me que viram na televisão a concentração independentista da Diada Catalã, na passada sexta-feira 11 de Setembro, dia da Catalunha. Eu também a vi de relance nas notícias e não quis ver mais. Para imigrantes como eu, é uma coisa que não só não faz sentido mas também já começa a incomodar, porque não tenho direito de voto na matéria e não acho graça nenhuma a que me mudem de país contra a minha vontade. Mais do que isso, acho que uma Catalunha independente não vai resolver nenhum problema, só vai dificultar o desenvolvimento económico e prejudicar o investimento estrangeiro, com a saída da União Europeia. De resto, os políticos catalães não são melhores que os espanhóis, o circo é sempre o mesmo e tanta manifestação quando realmente não vivemos num estado oprimido, já é palhaçada. Eu que até sou de esquerda e apoio a 1…

Dilemas à beira mar plantados

Apesar do tempo invernoso, ainda é Verão, pelo que me parece pertinente lançar um tópico que, com certeza, é comungado por mais usuários solitários da praia. É, na verdade, uma questão de segurança pública e amor ao próximo. Passo a explicar: uma pessoa chega à praia, estende a sua toalha, despe a roupa e põe-se a fritar ao sol qual bife panado. Vai daí quer ir à agua. Surge então o dilema: vão roubar-me as coisas se for dar um mergulho? A solução mais comum é pedir ao vizinho do lado, da frente, ou de trás, para, por favor, dar uma olhadela às nossas coisas. Eu faço isto, toda a gente faz isto e vai ao seu banho descansado da vida, que tem ali um guara-coisas privado. No entanto, esta situação levanta-me imensas angústias: primeiro, se alguém na praia é um potencial ladrão, como é que eu sei que não são aquelas pessoas a quem pedi que cuidassem dos meus pertences? Só porque estão à volta do meu diâmetro deixam de ser suspeitos? Porque têm um biquíni mais bonito ou porque trouxeram a…

No Arco da Rua Augusta

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Foram muitas as vezes que passei pelo arco da Rua Augusta. Umas vezes vinda da Baixa-Chiado, outras vezes da Praça do Comércio. Desde o Camões até ao Cavalo do D.José, passando pela duvidosa estátua de D.Pedro e pelas paragens do elétrico, este azulejo de Lisboa é uma das minhas zonas preferidas, juntamente com Belém e o Castelo. E Sintra, se formos falar dos arredores. O Pessoa continua sempre ali sentado no mesmo sítio, dá gosto vê-lo ler aquele jornal parado no tempo. Mas há sempre alguma loja nova, alguma coisa diferente, algo que anda não tinha visto apesar de todas as vezes que passei por ali. No Natal foi a Manteigaria, no Largo Camões, a única loja do mundo que tem pastéis de nata tão bons como os de Belém, antes disso tinha sido o Museu do Design e antes não me lembro. Desta vez surpreendi-me com a mudança de organização de andares da H&M, onde antes havia uma coleção de roupa e acessórios há agora uma coleção para o lar, e com o elevador do arco da Rua Augusta. Não, não…

Don Giovanni

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O Don Juan é um bom conhecido de todos nós. Um Zézé Camarinha à espanhola que, verdadeiramente, era italiano, com uma lista de conquistas impressionantemente vasta em Espanha. Um personagem idolatrado por muitos e que em todos desperta curiosidade. Mozart elevou o seu estatuto a ópera e agora há uma interpretação portuguesa que fomos ver, em família, ao teatro Thalia. Não posso contar o final para não estragar a surpresa, mas, acreditem, “não é o que parece”. Posso dizer que a minha personagem preferida é o Leoporello, o fiel criado do Don Giovanni, que tenta convencê-lo a mudar o seu life style de womanizer, sem sucesso mas com muita graça. Outra coisa que me chamou a atenção foi o espaço em si, um palco humilde imbuído nas paredes em ruinas, com pedras que nos transportavam mesmo a uma qualquer noite de tempestade da Veneza do séc. XVII. O cenário ganhava vida com um jogo de luzes de maestro e a orquestra em vivo. Não fazem falta mais personagens nem complexidades no argumento pa…

Quando a solução se transforma num novo problema...

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Na semana passada vi figos e fiquei com vontade de comprar. Mas não havia leite condensado e toda a gente sabe que os figos, ou se comem com leite condensado, ou não se comem. Esta semana lá estavam eles outra vez e não resisti, vieram para casa entre uma melancia e duas bananas. Comprei leite condensado noutro lado e realizei o meu desejo. E fiquei com uma lata de leite condensado aberta, praticamente inteira. Diz a lata que, depois de aberta, é preciso consumir em 2-4 dias o que coloca o consumidor sob tremenda pressão. Eu até como leite condensado à colher, mas apenas o suficiente para evitar uma intoxicação alimentar. Eis se não quando, tive uma ideia que me pareceu brilhante, modéstia à parte. Comprei margarina, despejei a lata de leite condensado na frigideira, juntei-lhe 4 colheres de Nesquick em pó e mexi até aquilo fazer bolhas e ganhar uma consistência pegajosa. Deixei arrefecer et voilá! Agora tenho aqui um brigadeiro que não consigo parar de comer. Está tão bom e sabe …

Uma questão de perspectiva

A questão das perspectivas é, realmente, sui géneris. Estava eu a voltar de Londres, depois de um táxi, uma hora de autocarro, uma hora de espera no controlo de segurança de Stansted, onde obrigam a pôr todos os líquidos numa bolsinha transparente, duas horas de avião e outra meia hora de táxi, quando cheguei a casa. Meia noite e meia, mais coisa, menos coisa. Paguei ao motorista, agarrei na bolsa, abri a porta, saí do taxi, fechei a porta. Caminhei até à entrada do meu prédio e, em frente ao portão, pensei “Hoje vou de elevador, que com a mala não me vou pôr a subir as escadas”. Só aí me apercebi de que não estava com a mala. Não, a mala estava no porta bagagens do táxi. A mala que nem sequer era minha, era uma carry on cinzenta que tinha pedido emprestada a uma amiga (que graças a Deus não fala português, portanto jamais lerá este post),  motivo pelo qual tinha passado tanto a  viagem de ida como de volta com redobradas precauções para não me esquecer da mala, não me confundir, não…

Eu escalei um Vulcão, e você fez o quê este Verão?!

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O mundo está cheio de lugares comuns, esta frase é um deles. Escalar o Vesúvio, por exemplo, já é algo mais atípico. Não podia deixar Itália sem uma pequena aventura e nada melhor para rematar o último dia que uma visita a Pompeii, seguida por uma leve escalada do Monte Vesúvio. Digo leve porque não foi uma escalada tipo Monte Everest, foi mais uma escalada tipo Serra de Monchique. Que é como quem diz, a dar à pata. Considerando o calor e a inclinação, recorde-se de que estamos a falar de um vulcão, não é feito para ser menosprezado. Eu só pedia um bocadinho de trilha que não fosse a subir, só um bocadinho que fosse, assim, em linha reta. E pedia e bebia água, e pedia e bebia água enquanto subia, e pedia, bebia água, suava e continuava a subir. As minhas preces foram ouvidas quando atingimos o topo, onde jaz a cratera de um dos vulcões mais mortíferos de sempre. Ali, o caminho estabilizou-se. O vulcão é um buraco gigante, embora não muito profundo, o que torna difícil imaginar que há…

O anúncio do Verão

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Não sei se em Portugal também passam este anúncio, mas esta semana vi-o na televisão aqui em Espanha e achei um piadão.
Quem não se identifica com algumas, ou até mesmo todas, as "exigências" do Verão: o estar em forma paea usar fatos de banho, a depilação sim ou sim, o matar melgas a meio da noite à chinelada, as actividades outdoors com um calor abrasador, os triquinis que deixam marcas pouco estéticas, as aventuras radicais que de quando em vez terminam mal, as festas da aldeia com fogueiras que realmente não queremos saltar, os banhos de barro que nos convencem a experimentar em alguma viagem de férias,  os colchões, braçadeiras, bóias ou botes que dã cabo dos pulmões... enfim, sou uma fã confessa do Verão, mas também é verdade que não é fácil!

Capri...apenas...

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Há muito tempo que queria ir a Capri. Era um dos meus destinos alvo para este ano. Queria ir a Capri porque os meus amigos italianos me tinham falado maravilhas, queria ir a Capri porque tem um non so cosa (adaptação contextualizada de um je ne sais quoi), queria ir a Capri pelo mar azul e pelo aura de glamour dolce vita. Tanto queria, tanto queria, que me meti num barco em Positano (um iate vá, não sejamos modestos que a coisa foi “chique a valer”, como dizia o outro) e fui para a Capri um dia.
 Sem dúvida um dos melhores dias de férias que já tive, com o cabelo ao vento, nas águas tão “blu”como transparentes, à descoberta de grutas esculpidas com primor pela natureza e anos de erosão que foram formando figuras sem o saber. De mergulho em mergulho à volta da ilha, desde a grotta bianca à grotta azurrra, com paragem pela grotta verde. As grutas devem o nome à cor das suas águas. A mais conhecida e impressionante, claramente a minha preferida,  foi a grotta azurra. Não só pela gruta e…